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Meu amado me sussurrou as palavras. Eu fiz os versos.
Simbiose
invoco tua presença,
oh, tu, que tantas causas abraças,
tantas teorias, abstrações e dilemas,
preciso de ti que me elevas nas asas
que me mostras as nascentes,
que me acenas com as auroras
e com os poentes,
tu, que me desprendes
meus pés de chumbo
do laborioso e duro chão,
eu, que me prendo às estações do ano
e me aferro no empenho do braço,
de ti espero a leveza do aço,
tu, que és ligeira
e que me foges na dança,
que és meu inferno
e minha esperança,
eu que me atenho à insensata missão
de escravo que me doei,
recorro a ti que me faças livre,
para, de novo, te encontrar perdido,
tu, oh! tu, que me necessitas,
mas, me ultrapassas infinita,
que me retardas os passos
nos volteios de tua graça,
eu que me cubro de cinzas,
que vejo tão nítida a luz,
me agarro à tua penumbra,
deslumbrado em te iluminar,
tu que contemplas o trigo
do qual te oferto meu pão
a ti que te nutres das brisas
e te sacias com o orvalho
aceita meu ser pesado
de barro e desolação
o sol de teus poemas
é o mesmo que me alimenta,
as verdades que tu cantas
traduzo-as em minha matéria,
o que me causa cansaço
transformas em melodias
me acolhes em teus versos
te transponho em flores vivas,
tu me prolongas nos ares
eu te dedico minha lida,
tu, meu navio errante,
eu, tua âncora escondida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h20
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Inconcluso
Não me defino criadora ou corrosiva. Mas, destruo o momento, no momento em que o vivo, enquanto momentaneamente já vislumbro o outro momento que virá.
De morte em morte, edifico a vida, numa perpétua corrente. Que ouvidos “aparentados” possam captar o que digo. Porque vejo mortos ambulantes, sem languidez aparente.
E no berço do recém-nascido presencio o túmulo e as flores.
Não, não é morbidez a minha. É antes um sim à vida e um convite contraditório para adentrar o momento e a sua efemeridade, num mergulho tão profundo de quem dele não vai emergir.
Antegozar o alvorecer, antes de a noite findar, antecipar em potência o ato vindouro e oportuno.
Viver, pois, morrendo em paixões, num processo de espera, num ponderar de contrastes, daquela incerteza tão certa.
Escolher um percurso ao acaso, porque iguais são todos os percursos, apenas se dissimulam em díspares bizarrias. Ou não escolher nada, ser escolhido, talvez. Porque intrincado é o jogo deste ser ou não-ser.
E mais decisivo ainda, é aceitar que tudo é assim, e assim sempre será, até que as regras do jogo consintam em se desregrar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h34
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Drenagem
na manhãzinha
resgato-me pedaços
sobras da escuridão
sob o círculo do sol
nutrem-se das lágrimas
(minhas)
as flores azuis
debruçadas
no peitoril da janela.
Pessoas amigas. Ainda quero responder os comentários de vocês. Aguardem!!!!!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h06
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Gente querida! Fui "aniversariar" nas praias. Foi uma comemoração inesquecível!!!
Vocês vão compreender essa ausência, portanto...
Agora, que acabei de chegar, vou ler tudo que me escreveram com tanto carinho e retribuir a todos com carinho dobrado!!!
Por enquanto, deixo um pouco das flores que recebi, com vocês.
E já volto, logo!!
Deixo beijos saudosíssimos também.
Dora
Escrito por Dora Vilela �s 18h09
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Trocas
soube de vendavais
quando te amei
conheci volúpias
quando me amaste
me iniciei em vôos
ao te seguir
aprendeste truques
de me acolher
descobri ausências
ao fruir tua presença
me inauguraste um tempo novo
quando demarcaste
todos os limites
de meu ser
em tuas mãos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h03
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Registro
o dia está tão cheio de mundo,
que meu verso encabula
não sou diurna decididamente
os olhos observam passos,
ruas, praças
as mãos roçam texturas
quenturas, arestas
os pés pisam diversidades
ou nem tocam o chão
o dia está realista demais
meu verso não se estimula
ouvidos sofrem sons de artifício
o corpo se atrita
em excesso de artefatos
meu verso não se condensa
é noturno,
precisa ser filtrado,
e revelado, como foto,
no escuro,
como eu.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 22h33
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Pueril
nos instantes vazios
recolho infâncias
e de guloseimas são as ceias
que em sonhos preparo
brinco na seriedade
dos fenômenos
fazendo caretas
aos mensageiros da dor
a menina que hospedo em mim
duvida do tempo
e não se cansa
do jogo de amarelinha.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h03
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Linearidade
Desde criança tinha mania de perfeição, aquela mania esquisita de detalhe, de minúcia, de coisa pequena. Gostava de desenlaçar o emaranhado de fios de lã ou linha que mamãe, na pressa, ia deixando nas gavetas de costura. Não podia ver quadro torto na parede, endireitava para cá, para lá, dava uns passos para trás, na tentativa de alinhá-los na simetria que eu imaginava correta. Enfim, sempre esquadrinhava mínimos pormenores nas roupas lavadas, manchas minúsculas, pequenos descosidos e levava ao conhecimento de mamãe, como se fossem falhas imensas que necessitassem de cuidado urgente.
Era uma obsessão inconsciente ainda pelo insignificante e pela coisa próxima de meu raio de visão e do meu alcance de mãos. Talvez porque desde tenra idade, já sofresse de miopia, que não me deixava enxergar com nitidez objetos situados a poucos centímetros de distância. Lembro-me da agradável surpresa que experimentei ao colocar óculos corretivos, pela primeira vez. Fiquei de pescoço dolorido, estupefata, ao divisar as estrelas-pirilampos no negrume antigo do céu. Até quase dez anos, nunca havia reparado em tal beleza. Passei a olhar tudo com renovada atenção. As cores, nos seus semitons, me enredaram daí em diante. Eu, que antes distinguia apenas as cores primárias, passei à percepção da gama de matizes que pode haver num simples vegetal.
Porém a esquisitice de tudo esmiuçar e procurar o pormenor, o limite, o início, passou a ser um traço de comportamento mental que me acompanhou continuamente.
Não se tratava de um mero traço de comportamento, mas de uma curiosidade exigente e disciplinada, irmã próxima de uma tendência neurotizante.
Poderia se tratar de uma neurose realmente; contudo, dentre todas as atitudes que já tomei na vida, nenhuma foi ainda comprometedora da minha sanidade mental.
O certo é que todos nós oscilamos sobre o tênue fio divisor entre a demência e o equilíbrio.
O estado normal de alguém só pode ser medido relativamente.
Então, eu poderia ser, com tranqüila aquiescência, uma neurótica, ou não, dependendo de inúmeras variáveis e pontos de vista.
Sou, na verdade, compulsivamente inquisidora e crítica. Nada me passa pelo crivo, sem que eu me detenha até onde me permite minha capacidade de discernimento, no intento de chegar às últimas conseqüências.
É um hábito terrível porque os referenciais mínimos, de que se necessita para certa serenidade, acabo deixando-os abalados e inúteis.
Enfim, vou vivendo quase sem certezas, me enfiando pela existência como a desembaraçar os fios, o que, em criança, eu já amava fazer nos novelos de minha mãe.
A racionalidade excessiva mata, sem dúvida nenhuma, outros excelentes aspectos do ser humano. Mas, não creio que, com minha tendência exagerada para o intelectualismo, tenha perdido as demais faculdades da alma.
Comprovei isto ao longo de dolorosas experiências, onde de nada me valeram análises, raciocínios e conselhos filosóficos.
A vida é maior que tudo e supera qualquer abordagem que se queira dela fazer. O viver não cabe em escolhas, moldes, esquemas. Há apenas duas regras: ou se está vivo, ou, não. O resto, o antes, o depois, são só dúvidas, expectativas, esperanças.
Sempre quis agarrar minha existência pelo freio, como se faz a um cavalo rebelde. Sempre quis me preparar para suas surpresas e inesperados. Ela sempre me arrastou, me desafiou e mostrou sua força.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h28
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Projeto
ando colecionadora de retalhos
de sentimentos
em gavetas que envelhecem
a madeira
e soltam os parafusos
entulho vidros de conserva
com estilhaços
de alquebradas emoções
um dia_ com o tempo a meus pés_
vou enredá-lo com histórias
das mil e uma noites
e mais algumas
inventadas
_de encomenda_
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h41
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Olá amigos! Ando ausente por esses dias, por motivos festeiros. Visitas de familiares, dia da criança( há crianças por aqui, desde sexta-feira), muita confusão de lar. Estou de volta, depois que conseguir me entender com a bagunça generalizada!! que sobrou...E como sempre, responderei a todos vocês, a quem agradeço, de antemão, as visitas e comentários.
Estou "agarrada" no meu Marcelo, nesta foto!!
Beijos!!!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h24
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É assim...
a vida proíbe, rigorosa,
o advérbio sempre
mas permite
tão sobejamente
os aqui e agora
a vida, avara,
oculta o Tempo
mas, afoita,
goteja as horas nos
ponteiros
dos relógios.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h57
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Cora Coralina
“Coexistir, resistir, transistir”
Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas deixou este pomposo nome de família e passou a ser para nós apenas Cora Coralina.
Da realidade de mulher nascida na preconceituosa Goiás Velho, dos fins do século XIX, Ana se transformou em Aninha nos poemas e em Cora Coralina na assinatura de sua poesia singular.
O conhecimento desta artista, partindo-se de sua biografia, leva a crer, que, na verdade, talento e arte são valores profundamente misteriosos e, de alguma forma, inatos.
Criança carente e doentia, nascida em cidade desconhecida, com apenas o antigo curso primário e poucas leituras no decorrer da vida de doméstica-doceira, Cora Coralina exprimiu em verso uma imensa força criadora.
Ela mesma confessa: “ Minha poesia...já era viva e eu sequer nascida...ela cascateia há milênios”.
Nasceu com a arte dentro de si e talvez resida aí o agradável sabor de autenticidade de quem imita de tão perto a vida.
A sabedoria existencial lhe chegou pela própria vivência dos encontros e desencontros, das alegrias e penas do caminho percorrido com lucidez e sensibilidade.
Uma das poetas mais laureadas do país, chegou a receber o título de doutora “Honoris Causa” pela Universidade Federal de Goiás.
Seus livros “Poemas dos Becos de Goiás” e Estória Mais”, “Meu livro de Cordel”, “Histórias da Casa Velha da Ponte” e “O vintém de cobre: meias confissões de Aninha” perfilam hoje ao lado de grandes poetas da nossa literatura.
Cora Coralina tem a vitalidade da terra brasileira e, como esta terra maltratada, desbaratada e pouco cuidada, ainda assim arranca de seu ventre fecundo dádivas de florescência e otimismo.
Ligada aos ancestrais, arraigada ao torrão natal, consegue, porém, transcender o nível pessoal e particular, para se expandir num alcance universal.
Atinge o “eterno feminino”, carregando consigo todas as mulheres: “Todas as vidas dentro de mim...”
Além de Goiás, sua pequenina cidade, sua poesia alarga-se em preocupações com seu imenso país de menores abandonados, delinqüentes, prostitutas.
Aproxima-se do cerne da vida, referindo-se sempre ao solo, à raiz, à semente, ao grão. Como o grão de milho, que ela vê explodir de dentro da terra e acompanha-o magistralmente no “Poema do milho”: “ e o milho realiza o milagre genético de nascer...”.
Admira-se sempre com o fenômeno do nascimento. Queda-se maravilhada ao dar à luz cada filho e cada poema.Tudo que germina, que brota gratuitamente, que eclode em vida se parece com a própria Cora.
A fonte de maior beleza lírica de sua poesia são as lembranças da lida rural, as estórias, lendas, tradições, um folclore transubstanciado pela arte.
Os becos de Goiás, os velhos sobradões, a escola primária, o rio Vermelho, os recantos românticos e prenhes de recordações infantis são cantados numa ode de louvor à terra natal: “Becos da minha terra...têm poesia e têm drama.”
Cora Coralina, a frágil e miúda Aninha, agiganta-se e alteia a voz de bronze no centro de seus poemas.
Com tanta coisa para contar, ela _geração ponte_ evoca infindáveis casos passados, profetizando o futuro.
A sábia “professora de existência” quer “arrebentar todas as amarras” e ensinar a lição da vida: “coexistir, resistir, transistir”.
O peso dos preconceitos, o reprimido universo infantil, a formação castradora da mulher, nada lhe impediu o vôo da imaginação fértil e a largueza das idéias.
Cantou seu canto de peito aberto e de todas as penúrias, limitações e misérias, Cora Coralina retirou, como um mágico ilusionista, um mundo de emoções e lirismo.
Se o amargo desejo de um tio pessimista diante de sua conformação física_”melhor não fora nascida”_ se houvesse realizado, hoje não teríamos Cora Coralina.
Ela, porém, contrariou a vontade do tio, chegando aos noventa e seis anos e nos legou seu rico e fascinante universo poético.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h01
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ENTRE DOIS PONTOS
do alto penhasco, contemplo o abismo,
não temo as alturas, só temo o caminho
entre o salto e a queda
o início e o fim são extremos tão fixos,
o meio, a passagem, a ponte são só dúvidas,
se multiplicam, variam, tonteiam
quem não sabe que nasceu,
ou a que final chegará,
mas quem sabe o percurso, o entremeio?
o doloroso da vida é a vida, ela mesma,
ela é a medida entre os pontos,
é o recheio, é o vão, é o enigma.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h35
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ACERVO DE SAUDADES
De todas as minhas saudades, a maior é a da casa da minha avó.
A casa da minha avó paterna, tão distante no tempo!
Meu pequeno ser a afigurava alta, enorme, acolhedora.
Dentro dela sentia a segurança de quem tem raízes e uma confiança ilimitada no bem-querer de seus habitantes.
Tinha a certeza de ser amada, prezada, no interior daquelas paredes que eram minhas, faziam parte da minha vida passada.
Não conheci meus bisavós, nem mesmo meu avô paterno, mas sentia orgulho de pertencer, de estar ligada àqueles adultos, com fotografias na sala principal.
É um curioso sentimento de orgulho este de se querer ser parte de um todo, de ser um elo de uma cadeia. Eu possuía este sentimento que me acompanhou vida afora e nasceu na casa da minha avó.
Até onde a lembrança me leva, lembro-me de não me importar nem mesmo em saber que espécie de pessoas eram meus antepassados. O importante era saber que antes de mim houvera uma corrente, que me levava para trás, que me unia talvez a um mundo remotíssimo e ainda assim, meu mundo.
Essa consciência de possuir um fio centrado em mim mesma não era característica infantil. Permanece comigo até hoje.
Quando me encontrei, um dia, em uma circunstância fortuita, no meio de uma grande cidade estrangeira, onde eu era apenas uma anônima transeunte, um ser humano entre centenas de outros, senti agudamente uma terrível impressão de queda, de perda de identidade, de pânico. Foi a primeira vez que me dei conta da vital precisão de significar alguma coisa para mais alguém, que não eu.
A experiência foi marcante e esclarecedora. Ela me remete sempre àquela sensação da infância, o que me faz amar a casa de meus avós e ao mesmo tempo sentir-me ridícula.
O amor se prende ao fato de encontrar uma espécie de significado para a minha existência; afinal sou a continuação de um encadeamento lógico e natural: minha árvore genealógica.
O ridículo é pensar que fora desta árvore me sinto perdida, como uma folha que se desprende da própria seiva da vida.
Afinal de contas, ao se generalizar, todo ser humano tem a mesma raiz e, de certa forma, a humanidade inteira é uma só floresta dentro do universo.
Porém, a mim me parece uma idéia exageradamente abstrata e forçada supor-me ligada a um habitante da China ou a um esquimó. E rigorosamente falando, há muito que se filosofar para se chegar a uma afinidade pessoal com seres humanos talvez até mais aproximados de nós.
Não serei nunca uma cidadã do mundo, neste sentido. Não tenho suporte filosófico nem temperamento para tanto.
Fisicamente tenho que me sentir arraigada. É uma triste constatação, mas é uma constatação.
Minha descendência seguirá, quem sabe, outros caminhos. Eu, bem lá no fundo de mim, sei que permanecerei sempre, e ridiculamente, na casa da minha avó.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h46
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ESCOLHAS
não posso cantar as ruas,
não as vejo, nem demoro
nelas o meu sentido,
nem as céleres avenidas,
ou as mortes-auto-estradas
são meu percurso na vida
não enxergo as galerias,
bulevares e esplanadas,
deslizo por baixo das pontes,
sobrevôo os viadutos,
não passeio em passeios públicos,
e abomino os lugares comuns,
me fecho ante as vias todas
que me levam onde é prá ir
antes, as trilhas ceifadas,
cortadas nos canaviais,
os atalhos serpenteados,
as sendas dos vendavais,
na rota das ondas,
nas margens dos rios,
meus pés já me contam
o ansiado caminho.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h08
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Rapidinho
O encontro foi pelo olhar.
O resto veio depois.
Os olhos, frágeis janelas,
se abriram de par em par,
magnéticos, encantados,
e o resto veio depois.
Pelos olhos se falaram,
se contaram, se enlaçaram,
o bastante prá depois.
E depois, foi o restante,
vida mofina, flores murchas,
dia-a-dia,
joão-e-maria...
E o desencontro foi pelo olhar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h55
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ESPERANÇA
o domingo é letárgico
pausa na busca frenética
da corrida do ouro
compasso de espera
unanimidade
o domingo é fora do tempo,
tem vida própria e criatividade
o domingo não é artificial,
é dia inerente à humana condição
o domingo respira à larga,
faz bailes e envia cartas de amor
contempla braços dados,
mãos entrelaçadas,
distribui beijos e suspiros
afrouxa os colarinhos
e areja as repartições
o domingo já nasce vadio,
buscando sol
ou chuvinha miúda
não rima com fato aprazado,
nem combina com passo apressado
e o domingo acabado
espera o próximo domingo:
única verdade em que o homem confia.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h49
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