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Aos meus amigos
O céu não é o limite
O céu da minha manhã, que o olhar capta em ligeiro azul,se prolonga e percebo meu equívoco.
Nessa infinitude, meus olhos não alcançam o limite, e céu significa todo o espaço acima de mim.
Não posso abordá-lo, na minha restrita capacidade. Mas, por isso mesmo me consola porque o penso como um invólucro de todas as coisas abaixo dele.
Ele não é o céu, é o telhado aberto, e ao mesmo tempo abrangente, que me aconchega ao mundo, como se eu fizesse um acampamento de férias e o céu fosse a imensa barraca de lona que nos adicionaria em companheirismo.
Meu céu é de todos e quando eu o contemplo realizo um gesto tão largamente amistoso de comunhão. Efetuo um encontro de olhares, como pipas coloridas que se entrelaçam, lá no alto, numa festa de congraçamento, onde raios de todos os tempos e lugares, provindos dos infinitos olhos do mundo, se tocam e se reconhecem na sua perplexidade.
O céu da minha manhã parece agora se estender majestoso e, ao fitá-lo, meu olhar o transforma em um sagrado dossel do templo da visão humana.
Aí revisito todos os meus amigos que estão longe... e que, de repente, ficam perto.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h20
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Inspiração matutina
com o gosto amargo e doce
do café da manhã,
me inspiro na xícara
e faço o poema
o poema é louvor
do odor, do prazer
e do intenso calor
de um instante de luz
a luz vem da miúda,
diluída, sentida
sensação de esplendor
de sentir o viver
o viver se apega ao tato
da mão que depõe a xícara
no lábio queimando, vibrando,
sugando o negror do café
o café se sacramenta
em força envolvente,
concentrando espaço
entre a consciência e o ser.
Sou lúcida e viva
na boca aquecida
no corpo que sente
pensando e existindo.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h00
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Percepções
Atualmente, os dias me têm passado em separado, como se estivessem destacados, sem ligação com o anterior e com o que virá.
Assemelham-se a pequenas pérolas de um colar que arrebentou e cada uma rolou para um canto do aposento. São pérolas sozinhas, não são um colar.
O dia se escoa em mim com sua própria cota, sem continuação da trajetória de ontem.
Esses dias, de que faço referência, diferem das novelas televisivas, com os capítulos se ligando entre si. Vivo a trama toda num só dia. E no outro, ela já está terminada.
Como em filme.
E o dia seguinte se inicia úmido, limpo como uma folha em branco a ser preenchida com uma intriga nova.
Tenho a sensação de habitar o dia, como saída de um ovo, mas sem a ingenuidade dos recém-nascidos.
Faço o aprendizado de esmiuçar as coisas e observar os minúsculos fenômenos. Reduzo a pressa, que me fazia varar os dias como se olhasse de uma janela de trem veloz.
Em cada dia, condenso uma vida total, no presente que ocorre.
Isso não é um esquema. Mas, é um efeito didático.
Vivenciar o dia, em separado, é tentativa de fixar a pulsação que cada minuto traz e atentar na surpresa de existir gratuitamente, sem esperar grandes eventos mundanos.
Ando em experiência de vida miúda que, na verdade, pode ser a experiência mais vital que realiza a autêntica vida Maior.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h33
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Passagem
Progrido em sua direção.
A lua esquálida me testemunha
nos atalhos onde enrosco minha túnica.
Preparei-me com sândalo
das horas balsâmicas.
Deixei ninhadas
em viço de existência.
Não me despedi
do sangue que circula
nem das dores estancadas pelo olvido.
As estações ainda virão
e numa delas
me deitarei
à sombra de um salgueiro
que chorará sem lágrimas
minha estada última
o vento
dissipará minhas cinzas
sobre a relva
companheira.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h16
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Confusões
Quando me canso, quero escrever banalidades. Mas, elas, as banalidades, são enganosas. Porque afinal, nem sempre se distingue o que é importante para viver.
E é muito relativo o sentido do que é banal. Conheço pessoas que adoecem por coisas que a mim nem tirariam o sono. E vice-versa.
Talvez o dicionário possa auxiliar com a explicação de que banal é corriqueiro, trivial ou vulgar.
Não sei por que fui tratar desse assunto. Porque para mim, banalidade acabou por associar-se à banana, a fruta mais trivial em nossa mesa.
Mas, nesse caso, comer uma banana macia, madura e amarela, pode ser um momento sem nenhuma banalidade, já que aprecio enormemente essa fruta e cada mordida nela é um ato de pura fruição. Não é banal.
Porém, ao invés de banalidades, deveria ter dito que queria escrever trivialidades. Quem sabe desse no mesmo quanto ao surgimento de dúvidas. Mas, pelo menos, trivial não me levaria a relacionar a palavra com nada comestível e prazeroso.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h08
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Inefável
Tenho uma boca que me delata.
O pensamento se enovela e se enrosca, enquanto a boca já o fala, despudorada e leviana.
Mas, devo muito a ela. Justamente porque, na sua precipitada atitude, me presta um valioso auxílio.
Quando ela diz o que nem sei exatamente, ela me induz a desvendá-la.
Parece que minha boca, que fala de mim, não sou eu, não faz parte do meu todo.
Sou uma fragmentada, quando falo a palavra. Saio à cata das peças do meu puzzle vocabular.
Meu pensamento se debate numa atmosfera nebulosa, num chão de limbo, entre precipícios, que não ouso encarar, agarrada em raízes que brotam sem cessar, de um escuro habitat.
Porém a voz apressada que mora em minha boca faz seu arranjo e torna meu pensamento dizível.
Assim, às vezes, ela me aborta o aprofundamento. Quem sabe ela assassina o mais verdadeiro de mim.
No entanto, reconheço que a porcentagem ignota ela não falará, porque não se pode falar o que não é palavra, não se pode organizar em discurso o que é apenas vibração, o que é som disforme e o que é sombra de sombras. Isso caberá sempre ao silêncio.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 23h24
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Modinha para o amor caminhante de meus dias
nosso encontro primeiro
que afirmei
tão casual
nosso encontro então subestimado
por cautelas de sóbrios arroubos
nosso encontro que quase
beirou o ridículo
dentro das medrosas expansões
nosso encontro...
ei-lo que se desenrola
e se faz vital
agora a nos engolir
nos confundindo em
laços que ensinam
uníssonos dizeres
que nos iguala
nos mesmíssimos
rasgos, dores e prazeres
nosso encontro tão casual
que até agora
ocasiona o nosso encontro de hoje.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h24
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Platonismo
Era agora uma mulher alada. De tão leve, mal tocava o chão. Apaixonada por um ser etéreo, que se substanciava apenas nas palavras.
Lia seus versos de fogo dirigidos a ela, a escolhida. E se alimentava deles, nos dias que deslizavam mansos na superfície das letras.
Nunca lhe vira os traços, que delineava a seu bel-prazer, o sorriso, a boca, assim como as mãos. Ele se encaixava viril e forte, doce e frágil, nos devaneios das entrelinhas.
Ansiosamente procurou saber mais dele. Queria olhos nos olhos, o corpo entregue às carícias. Queria a tradução das palavras no amor concretizado.
O retrato que ele enviou disse pouco.
Encontrou-o, enfim. Em carne e osso. Não o reconheceu. O coração desacelerou. Buscou em vão os vestígios da paixão. Ele era um estranho às palavras que a faziam vibrar.
Desencantou-se. Rasgou os versos e a foto. E pisou com força no chão.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h44
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Compensação
a noite
dentro do corpo
que só medita sombras
e usa óculos escuros
no sol das avenidas
no entanto
esmago as uvas
e preparo o vinho doce
destinado
ao consumo
nas sedentas adegas
dos outros.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h48
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Vital
você se debruça em meu abismo
procurando fontes
e, cegos, mergulhamos,
de mãos entrelaçadas.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h40
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Repentes
Assombra-me a mudança súbita de qualquer natureza.
Sou afeita a ritmos lentos, silenciosos e delicados como a floração das rosas, que não se soltam repentinamente dos botões para se expandirem em corolas. Há um capcioso labor, sub-reptício, que se inicia nas raízes calcadas na terra até o fino caule, e ninguém percebe a olho nu a seiva se transmutando em flor aberta. Não há sustos na metamorfose paulatina. Existe o espaço vagaroso do escoar do tempo.
Meu assombro se evidencia na contemplação das ondas marinhas encapeladas, subitamente, a engolir embarcações e viventes. Fico me perguntando, atônita, que mar é esse, tão radicalmente distinto daquele que me lambe os pés, na areia macia.
Que rebeldia tão furiosa o faz levantar-se, de repente, da superfície, enrolar-se em serpentes uivantes, fustigar com raiva os rochedos, bramir sons de ira e vingança?
Não o concebo temperamental na praia que ele caprichosamente borda de espuma, onde deposita conchas multicores, cantando ritmicamente a canção de um vaivém .
Vejo uma esquizofrenia no mar obediente e dócil aos meus passos e o murmúrio dele fica a me soar como o choro daqueles que, mesmo culpados, são inocentes.
Mas, o que me transtorna e me deixa confusa é a intermitência de sua forma de existir, sua dupla personalidade: o mar é uma realidade mansa, plena de doçura, com a humildade do cordeiro, e é, ferozmente, o monstro de destruição e tragédia, indomável como um cavalo selvagem.
Esse repente, essa mudança de humor, essa face raivosa me ensina a existência dos opostos. É uma evidência que o mundo transmite. O mar a ilustra, explicitamente. Eu sei.
Todavia, continuo a sobressaltar-me, mesmo assim...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h19
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Brincadeiras
Em mim mora uma vidente. Que se julga poderosa. Recebo mensagens dela, no bem silêncio que me faço.
É um jogo que entretemos. Finjo crer nela e ela finge que me surpreende. Ela me conta a meteorologia dos meus sentidos. Aceito as chuvas que ela prenuncia e sorrio.
Minha intimidade, que ela devassa, sei que é plena de abismos.
Essa vidente fala o óbvio, como todas o fazem.
Envio-lhe um sol radioso, que adquiro pelas manhãs, antes que ela perceba. Convivemos, eu e ela, nessas trocas. Ela quer me assustar. E augura a transitoriedade da minha larga alegria.
Respondo-lhe com a violência do coração vibrando.
No seu subterrâneo, ela me sussurra atentos cuidados.
Não dependo dela e saio em busca da minha liberdade. Que é vermelha.
E misturo os tons.
Surge em mim a flor azul-avermelhada que coloco na lapela do meu vestido de festa.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h02
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Não costumo colocar no meu blog textos que não são da minha autoria.
Mas, esse texto de Marta Medeiros interpretou tão literalmente minha forma de pensar, que me deu vontade de expô-lo aqui.
JEITO DE SER
Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.
É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.
É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.
É uma elegância desobrigada. É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca. É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.
Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho e solidariedade.
Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que com amigo não tem que ter estas frescuras. Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão desfrutá-la. Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.
Texto de Marta Medeiros.
Escrito por Dora Vilela �s 10h38
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Centenário
Enfim, gostara de envelhecer. Ele, nem tanto. Mas, pensava ser o equilíbrio constante entre eles que lhe dera a sensação de vencer alguma barreira, ou ultrapassar um perigo.
Sempre imaginara um pesadelo sentir com pujança, na própria carne, o desmoronar do ritmo ágil e leve, passando para aquela lentidão pesada dos membros.
A repugnância que experimentara ao pensamento de se ver descarnada e seca, enrugada e trêmula, fora substituída por uma calma de fim de tarde.
Com a vista já cansada e gasta chegava a admirar as mãos pigmentadas no dorso, com os nós dos dedos mais grossos e hirtos.
A lucidez mental permanecia com ela e a memória das mãos era a mais nítida: revia-as amassando o barro, embalando crianças, empunhando lápis, dedilhando o piano.
Rememorava com orgulho a história que elas criaram, história anônima, circunscrita. A sua história. História de um século.
Ela mesma, sentada, tranqüilamente ao lado dele parecia talvez a visão de um fragmento captado do tempo.
O companheiro trazia mais marcados os traços da velhice e amparava-se ansiosamente na sua quietação.
Estavam sós dentro do mundo.
Nela a sabedoria fizera as pazes com o universo.
Ele relutava ainda, já que valorizara sempre o vigor físico.
Sua última incumbência quem sabe fosse suavizar–lhe essa dificuldade por ele tão mal assimilada.
Mas, não haveria urgência de nada daí em frente, para ambos.
Ela podia acreditar que saboreava mesmo tal momento da vida, em que não a alcançariam mais as cobranças do mundo.
Sua decrepitude orgânica lhe outorgava outra espécie de força, aquela que vem do pretérito e da experiência.
Não necessitava mais adaptar-se: tudo daria no mesmo.
O frenético orgulho de outrora cedera lugar à sensatez e à humildade. Enfim, sabia que todos os caminhos convergem para a saída única.
Não transformara o mundo, na medida em que desejara. Doara, sim, a sua verdade, a sua intencional busca da felicidade humana.
No outono da vida, ele procurava seu braço. Com alvoroço juvenil acolhia dele a eleição de ser seu derradeiro alento.
Viver era somente isto. Procurar. Tentar. Amar. A nobreza da velhice consiste em se deparar com a certeza oculta da vida inteira: “navegar é preciso.”
Apesar de...valera a pena.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h13
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