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Inverso
nem só de amor se fala
mas do seu avesso
principalmente
e das sobras fazemos sonetos
e dos gritos lembramos
o silêncio
assim percebemos que os restos
são plenos de conteúdo
de ganhos
perde quem não tem sobejos
de amor esparramados
prá somar
amor vivido não é ponto final,
é sempre vírgula, ou reticências,
é parágrafo inicial.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h04
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Imagem tirada do Google
Confecção
com palavras teci a colcha
que à noite me aconchega
minha face deita o veludo de carinho
com as mãos afago retalhos de sossego
os pés acariciam acessos de paixão
letra por letra inda bordei versos
que, por vezes, me arranham a pele
e há meu dileto fragmento
onde, em decúbito ventral,
me aperto os braços e o coração.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h37
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Vivendo em grupo
Pelos laços do afeto, as pessoas me rodeiam. E me cobram. Não. Não me pedem coisas ou ações.
Querem enxergar se a alegria está me saindo pelos olhos. Reconheço, pela intuição, que elas nem percebem o gesto de me pedir alma em festa.
Posso estar em outro estágio. Não estar triste ou preocupada, ou deprimida. Estar apenas comigo. Porém elas me desejam exteriorizada, oferecida a elas, disponível para elas.
Não lamento esse pedido mudo que me fazem. Nem me canso. Só não produzo suficiente carga de felicidade em tantos momentos desiguais.
Às vezes, me consumo a mim mesma. Realizo uma face desconhecida delas. E sinto a repercussão do meu descuido.
Porque, na verdade, pouco tenho a oferecer. Mas, esse meu valor eu constato. Consigo uni-las, entre elas, essas pessoas caras, pelo meu contato com a alegria.
Elas descobriram meu segredo, sem saber que o fizeram. E, mesmo ficando feliz com esse meu talento, meu temor é de que elas não saibam ser alegres por si mesmas. Habituaram-se à dependência de meu riso. Sou quase proibida de me entristecer e colocar em risco a unidade delas.
São constatações que me faço, em meio ao bulício das pessoas, à minha volta. Parecem fantasias minhas e, no entanto, já fiz o teste da realidade. E me surpreendi com o resultado.
Desandam os festejos sem a liderança do meu olhar iluminado. Não tenho direito à tristeza. Tenho sido a animadora da família. Sem me vestir os trajes de palhaço.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h45
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Centauro
meu pai não escrevia poema
mas andava a cavalo
aprumado na cela
à vontade
melhor que no chão
eu encompridava o olhar
lá no caminho
que ele cortava
cavaleiro da poesia
companheiro do vento
no lombo de bicho
aprumado
melhor que no chão.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h59
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Amigas
Invariavelmente, ela chegava até minha casa, de manhã. Esquisita, tímida, fechada como um ovo. Todavia, não reparava mais nesse jeito de ser de Beatriz. Era amiga de muito tempo, e a convivência é uma faca de dois gumes, pois se dilata o afeto, ofusca a visão dos traços alheios.
Eu sabia esperar o momento em que ela se dispunha a desatar a língua e os movimentos.
Entrava no carro dela, que adorava dirigir, levávamos os filhos até a escola, e, na volta tomávamos um café ligeiro. Para ela fumar, calmamente, serenada então, quem sabe pela minha presença que não lhe exigia nada.
Pessoa sofrida, jovem demais para as responsabilidades de três filhos, concebidos quase no início da adolescência, Beatriz era problemática.
Talvez por essa razão tenha se apegado a mim que tinha o dobro da idade dela. Foi se achegando, carente e frágil, numa doçura de menina.
Também me afeiçoei a ela, num papel meio materno, de protetora, conselheira e ouvinte.
Trocávamos afeto, numa relação em que Beatriz me fazia sentir importante, talvez, e eu a deixava tranqüila no meu próprio caminho, que ela observava, com atenção.
Bonita, de pele clara, olhos azuis, cabelos loiros, um tipo estrangeiro em nosso meio, ela diferia em tudo de mim. Éramos opostas. E isso constituiu nossa riqueza de aprendizado.
Beatriz mostrava, às vezes, um lado fútil e leve, que me deliciava e me relaxava a seriedade, levando-me a refletir sobre nossa diferença de percursos. Eu julgava que para ela tudo era tempo recuperado. Enquanto ela já estava sendo mãe e se desvelando com tantas preocupações, eu me permitia ainda a vida irresponsável de estudante livre e cheia de planos mirabolantes. Enquanto ela amadurecia nas gestações e dores, eu estava longe disso, na minha inquieta busca de identidade.
Acolhi Beatriz, e ela me aceitou feliz. Convivemos em longos diálogos, passeios descontraídos, discussões acaloradas, até mesmo em fortes discordâncias de opinião.
Mas, nosso cotidiano se fazia em dupla. Ela deixava o marido e os filhos, muitas vezes, para vir me contar longamente as mínimas ocorrências, e se deixava ficar em meu sofá.
Ela começou a encarar a vida cedo, cedo demais. Viveu tudo depressa demais.
E me pregou uma peça terrível, quando, uma certa manhã, acordei com o som do telefone. E um parente dela anunciando, assim, sem mais, que Beatriz estava morta.
Morreu, na flor da idade, num acidente de carro, numa rodovia. Deixou todos para trás. Ela se foi sozinha. Eu me perguntava, desde então, como tonta, como ela havia partido, sem me avisar. Ela sempre me deixava ciente dos passos dela. Sempre me contava as novidades dela.
Beatriz fez um estrago em mim, com sua morte. Deixou uma lacuna, que nunca preenchi completamente.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h49
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Pouco caso
se eu não fosse eu
essa coisa amorfa
que me enfada
eu dava as mãos à dor
e brincava de roda
com ela
porque com a morte
já trato de intimidade
deitada na relva
se eu não fosse eu
nem me daria atenção
nessas letras tortas
que encadeio.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h58
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Lavagem
derramando as gotas
das palavras amargas
no palco de nós
dissemos tudo sobre o mundo
até não sobrar pedra
sobre palavra
ficou o silêncio
carregado de interpretações.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h46
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Recompensa
Eram curvas e mais curvas no caminho estreito. E nas margens, precipícios escancaravam as folhagens densas. Eu não me atrevia a olhar para os lados, sabendo das alturas em que o carro poderia se precipitar, num leve descuido de meu pai.
Ele segurava a direção, com garras firmes e parecia concentrado e atento, enquanto eu observava seus maxilares apertados, sestro dele que minha infância conservou longamente na memória.
Minha irmã, teimosa, debruçava-se na janela, fazia malabarismos com a mão, tentando apanhar o vento. Sabia que não havia ninguém ali, em condições de lhe chamar a atenção. E ela se inclinava perigosamente, voltando-se, e me desafiando com o olhar.
Eu chegava a sentir meu corpo se tensionar, no medo de ter que lhe agarrar as pernas e puxá-la para dentro, a qualquer instante. E sem perturbar meus pais. Sabia o quanto ela ia adorar um motivo para brigarmos. Já havíamos disputado lugares, antes de encher o carro com o absurdo excesso de matalotagem.
A cada volta da estrada, coisas pareciam se desprender sobre minha cabeça, porque eu e minha irmã estávamos quase prensadas entre travesseiros e cobertas.
Minha mãe se postava imóvel, porque as inclinações do carro lhe provocavam náuseas. E ela tentava não irritar meu pai ou desviar-lhe a atenção. Estoicamente se esforçava para não causar transtorno, e eu me preocupava com sua palidez e prostração.
Nunca me acostumava com esses inconvenientes do percurso serrano que nos conduzia ao litoral.
Mas esperava, com o coração aos pulos, a curva especial e ansiada, em que meu pai invariavelmente falava sobre a vista do mar. E a situação tensa quase que se desfazia, no interior do veículo. O mar, a sensação do mergulho nas águas salgadas, a areia quente cantando sob os pés, o cheiro de maresia, as ondas se dobrando infinitamente na praia, tudo caía de chofre sobre nós. Víamos, do alto, a espuma branca, bordando o oceano, a nos acenar com um convite.
E todos faziam alguma observação aliviada. Minha mãe respirava fundo, se benzia e se preparava para a descida da serra, como se o carro fosse um avião na aterrissagem.
A única forma de me reconciliar com o penoso caminho, consistia na recompensa do mar. Odiava a estrada, do início ao fim, mas, justamente no fim dela estava o pote de ouro e eu suportaria tudo para me encontrar com a magia do mar.
Havia, lá no fundo, o pensamento querendo tomar força, do inevitável retorno, pela mesma via, pelos mesmos percalços, daí a algum tempo, de volta à casa. Entretanto, eu o empurrava para longe, mergulhando meu ser na água salgada e morna, encharcando-me nas vagas luminosas.
E lá no sopé da serra, aquietado o balanço do carro, já se sentia o odor inconfundível da cidade de praia.
Esquecia-me imediatamente da vertigem da viagem, com a esperança de dias ensolarados à beira-mar, experimentando então uma nova tontura, essa sim, agradável e vital para a natureza marítima que faz parte de mim.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h34
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Cinismo
as canções da terra
já cantei
em falsete, entredentes
a plenos pulmões
o choro da terra
já derramei
em grandes poças d´água
carpideira que sou
dos momentos meus
mantive o coração impuro
odiei a pieguice do amor
na aridez que me apanhou
neste blefe, perdi o jogo
mas, rearranjei as cartas
sobre a mesa verde
as canções da terra
canto hoje em tom menor
com estribilhos de choro
porém amo de peito aberto
o amor todo piegas
que me enredou.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h41
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Canção de ninar
Teve nela sua origem. Uma minúscula quantidade de carne, músculos, ossos. Estava ali. Enrolada, como uma trouxinha de roupa, recendendo a uma vaga mistura de gente e lavanda.
Foi entregue nos braços que prepararam o gesto de amparo, numa ansiedade contida. O primeiro contato com aquele morno embrulho, transtornou a mãe. Um ser vivo, criado e mantido, tépido, dentro de seu próprio corpo. Agora, sobre seu ventre, a criaturinha, do lado de fora, como que se apoiava no berço abandonado.
Instintivamente, acalentou o filho de leve e procurou-lhe a face ainda enrugada, olhinhos apertados, uma cor rósea a se espalhar pelas bochechas, a boca meio crispada. Cabecinha quase nua, com penugem de pássaro, testa estreita, mãozinhas fechadas, tudo em latência de espera.
E ela cantou, baixinho, uma cantiga infantil. O pequeno fez caretas de reconhecimento ao som da voz que já ouvira de dentro da caverna, que há pouco era seu lar.
Abrindo os olhos, sugou o primitivo alimento, se acomodou na delícia única que conhecia.
E cresceu, esticou os membros, deu passos, realizou sons, fez risos, correu, aprendeu os elementos circundantes.
E veio o medo. Como o da chuva forte, batendo nos beirais dos telhados.
Ela se aconchegava ao seu lado e cantava a cantiga infantil, contando de duendes, gigantes e castelos fortificados. O sono tranqüilo se aproximava, ela se erguia, deixando no lugar vago o urso de pelúcia, no qual seus bracinhos buscavam segurança.
A cabecinha nua se encachou de sedosos fios negros. O menino se fez homem e a mãe permaneceu mãe.
A cantiga infantil foi morar em fundos de memórias.
O relógio e seus ponteiros. O calendário e suas folhas arrancadas. Primaveras e verões. Alegrias e dores mescladas nas agendas.
Um dia, a mãe quebrou o relógio e desfez as lembranças. Não se recordava de cenas, de fatos, de fotos, de fisionomias.
A cabeleira rareou e se tingiu de neve, os passos esqueceram os caminhos.
E ficou com medo da chuva forte. Uma aflição irracional. Carência de segurança. Precisão de apoiar-se.
O filho deitou-se ao seu lado, cantou-lhe a cantiga infantil esquecida. Ela se acalmou e, baixinho, repetiu palavras e melodia.
Um sono repousante a envolveu toda. E ela lhe pediu o urso de pelúcia, lá do fundo do armário. Abraçou-se nele, feliz e reencontrada.
Permaneceram assim. Posições trocadas. A vida obedecendo aos círculos que se completam.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h57
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Simplicidade
Sentir-se plena e sem precisão. Tempo parado, ar parado. O pêndulo do relógio balança prá mim. Enquanto eu quiser. Pesquiso-me por dentro. É um momento inconsciente. Porque só sei sentir e sentir.
A lagartixa na parede é um mundo em ação.
Tenho um corpo seguindo um ritmo. E há uma sala com cheiro de mofo. Um mofo que é meu também. Que amo como ao aroma mais inebriante.
Possuo uma redoma fantasma que cobre esta sala. Que cobre a casa, que cobre o mundo. De meus sete anos, de minha credibilidade.
Não estou febril com o calor envolvente a me cercar.
Penso ser amada e o amor me sustém. Respiro tudo o que está quieto. Estou viva entre vozes caladas, atrás das portas cerradas.
Amo as vozes também e ouço em mim o silêncio delas.
Passo a mão nas lombadas dos livros. Abro-os, quero devorá-los.
Embalo-me na rede que range eternamente. Rede pendente das paredes. Paredes altas, acolhedoras que me estendem as mãos.
Sei que meu sangue flui nas veias. Não é só meu este sangue, ele vem das paredes. De detrás das paredes, dos séculos atrás das paredes.
Meus avós nos retratos me olham de olhar agradecido.
Por eu existir, por eu sentar na rede, por eu apalpar os livros.
Porque eu vivo, eles podem viver.
Por ora, não tenho memória, só o presente.
Só o gosto do presente, e os cheiros, e os anelos infantis.
Dedico este texto a Shi, uma pessoa que possui um coração maior que ela! Pode?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h22
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Clandestinidade
Muito artificial aquele jeito de se posicionar à porta ao atender a vizinha. Que era sua amiga. Ela estava assim, ultimamente, não era natural. Queria flagrá-la em uma cena sem testemunhas, dentro do banheiro, depilando as pernas, escovando os dentes, passando as dezenas de cremes indispensáveis. Ela não estava me proporcionando essas situações de uns tempos para cá.
Suzana estava diferente mesmo. Começara interiormente a mudança, que agora exibia, até sem consciência, para fora da epiderme. Parecia rejuvenescida. E interessada no que se passava à volta, além, muito além, da tela novelesca, que constituía sua realidade diária.
Como marido, eu podia observar mais de perto. Engano meu. Mulher quando começa com enigmas duplica o mistério da sua natureza. Eu não entendia muitas facetas de Suzana, desde o tempo de namoro. Não por falta de tentar. Apenas porque não há muitos meios de se captar o que não se converte em objetividade. Como analisar fagulhas no ar? Como apreender um clima de tensão, coisa mais abstrata, sem superfície e densidade?
Era deste jeito o suspense de Suzana. Ela podia não realizar nada, mas sua presença dentro do espaço variava e criava uma novidade que me deixava apreensivo e me causava instabilidade. Se ela ria, eu enxergava uma nuvem no olhar. Se chorava, não havia uma verdadeira comoção no choro. Eram assim, sensações minhas, mas vinham dela.
Após o casamento, Suzana permaneceu mais tempo com uma personalidade lisa, sem as curvas e ângulos que me desestabilizavam antes.
E agarrou-se com alvoroço juvenil às atribuições domésticas. Parecia não querer outra vida.
Encantava-se com os mimos e os arranjos de casa. Despreocupada, tranqüila, feliz, deslizando em pequenos nadas. Desenvolta e surpresa consigo mesma.
Mas, meu coração não se aquietava. Não combinava com ela essa exteriorização de prazer.
Nossas noites de amor eram mais amenas, agora. Ela começou a se queixar de cansaço.
E eu a via se distanciando, com olhos baços, apesar das carícias mornas com que me cercava, sorridente.
Mulher é enigma, repito. E o suspense se alongava em mim, que sentia no ar uma corda se esticando ao limite, sem, contudo, romper-se. Até que Suzana, numa incerta noite, se jogou em meus braços, e me disse que me amava, do jeito dela, mas partia. Beijando-me, desculpou-se. Chorando, arrumou malas.
E, mesmo que eu, sem chão sob mim, implorasse ao menos o dia clarear, ela sumiu na escuridão. E eu tive absoluta certeza de que não voltaria.
Mulheres são enigmáticas, eu reclamei, em coro com o marido da vizinha. Ela o abandonara também.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h17
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Cair na real
se eu conhecer a verdade
um raio me fulminará
buscas, jornadas, desencontros
esta é a chuva boa
que molha
mas não mata.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h54
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Con-tato
se em mim há latência de quereres
me esparramo plena
como uma parturiente
que dará a luz
guardada em si
a efusão dos minutos me pertence
no vapor que escapa da xícara de café
que, lenta, vou esgotando
no escoar da ampulheta
na lua que me é sempre nova
completo meus ciclos
sem cálculo
no gosto sazonal
em palavras me decomponho
gozo em detalhes
musicando os instantes
nos compassos de mim
e me saúdo em goles de vida
na beberagem dos prazeres
de sentir ossos e carne
frio, suor
e pele.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h09
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