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Oracional
minha hora canônica é o crepúsculo
fim da luz que é natural,
quando busco o lume
dos segredos de outros crepúsculos,
uno-me ao silêncio dos monges
que ressoa nas alturas tibetanas,
mas, estou cá, embaixo,
no vozerio que não se cala e,
nesse poente de agora,
surda e quieta,
me resigno
a outro inevitável amanhecer.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h46
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Consciência
Amanhecera. Nuvens cinzas e pesadas, suspensas, sombreando a terra. O mar tomava o mesmo tom acinzentado e formava um horizonte opaco e indefinido.
Um vento fino, vaporoso, soprava de leve e uma chuvinha esfumaçada pairava sobre o espaço. Parecia não vir de cima, semelhante a um fog denso e opressor.
Com o correr das horas, uma tênue claridade me chegou pelo vidro da janela. Arrisquei uma saída, ao encontro do chamado do mar.
Ele ainda se revolvia, enovelado, dobrando-se sobre si mesmo e se espraiando pesadamente.
Lambeu-me os pés descalços, como sempre me desafiando para o duelo infindável que travávamos a cada encontro. Duelo de forças desiguais, ele, imenso e quase eterno, cego e poderoso, contra minha finitude e perplexidade.
Jogava-me em face, com violência, sua imensidão aquosa, zombando da minha aparente pequenez.
Eu poderia abrangê-lo, a ele, num movimento de olhos e mente. Com meus braços poderia trazê-lo a mim e transformá-lo, e bebê-lo, e, na minha vingança, fazê-lo desaparecer.
Eu era dona do meu pensamento e dona dele. Mas, temia que ele perguntasse, até quando?
Quando eu me transformasse em pó e cinza, talvez adejando sobre suas ondas, ele lá estaria ainda, indo e voltando na areia, naquela dança desumana e interminável.
Meu poder era maior que o dele enquanto eu fosse a criatura composta e complexa.
Diante dele, só a fragilidade me vinha à tona. Sua parte líquida habitava em mim e eu habitava nele. Mas, não me apaziguava nossa semelhança parcial. Queria penetrá-lo e desmanchar-me nele, permanecendo eu mesma. Queria ser por ele tragada e, ao mesmo tempo, tragá-lo.
Num momento, sua substância salgada me repugnava e eu o odiava por me tornar tão consciente de mim. Mas, ele me atraía, com aquela superfície ondulada, misteriosa e, sobretudo, imensa.
Não, ele não era infinito. Era até mensurável. Uma imensidão enganosa. Haveria quem pudesse vencê-lo. Ele guardava apenas a missão ignominiosa de perturbar minha tranqüila humanidade.
Diante dele, a queda humilhante vinha imperiosa. Eu respirava fundo e me esforçava para não me dobrar, mas, até seu ruído ensurdecedor me penetrava à força. A onda, que me enlaçava e me derrubava vencida, na praia, me enfurecia silenciosamente e me obrigava a buscar outras armas.
Entretanto, nosso duelo era apenas reflexo de uma luta mais funda, que eu vivenciava na presença dele. Não poderia odiá-lo; seria como odiar a mim mesma. O mistério entre nós era o mistério do ser. Eu e o mar, duas existências, duas realidades, ou uma só?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h45
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Como curiosidade, alguns contos selecionados de “Os cem menores contos brasileiros do século”:
Fim de Papo
Na milésima segunda noite,
Sherazade degolou o sultão.
Joca Reiners Terron
Fossa
Faço amizade comigo
para tomar uma cerveja.
Fabrício Carpinejar.
Mas o Rio continua lindo
Pensa o desempregado
ao pular do Corcovado.
Antonio Torres.
Só
Se eu soubesse o que procuro
com este controle remoto...
Fernando Bonassi
O pesadelo de Houaiss
Quando acordou,
o dicionário ainda estava lá.
Joca Reiners Terron
Fome Zero
_ Preciso comer!,
grita no SPA
a mulher de cem quilos.
Luiz Paulo Faccioli
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h46
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No tempo
Memória mais do vento, ladainha, porta entrebatendo.
Montanhas de azul longínquo esfumaçando em lilás.
Rabiscos na folha de papel rosa, sobre a mesa, lista de compras na venda, fósforos, farinha, miudezas.
Na fruteira, restando em desprezo uma banana, duas laranjas, uma goiaba machucada. Fruta era bom no frescor, no pé. Secados, só os tomates, de todo jeito saborosos de gosto.
Lá no terreiro, lembranças de bichos de penas, ariscos, ciscando o chão, o cachorro ladino, na corda o jumento, perto da cerca, cabisbaixo, saudoso de gente.
Na paisagem recriada, o silêncio se desfaz na tagarelice das crias da mãe: tanto se multiplicaram que a fizeram amargar. Sete filhos, entre as primaveras de dois em dois anos.
Pôs culpa na rudeza do marido, o mesquinho destino, o vestido de festa sem uso.
A areia se levantava esfarinhando-se nos ladrinhos da sala, penetrando os cômodos toscos.
A mãe, no atavismo do instinto, esquentava panelas, alimentava bocas, reunindo bichos e filhos num só coração grande.
O vento soprou compreensão. E ela recolheu os tomates, roupas do varal, reavivou o pomar, regou a horta.
Foi dissolvendo a amargura se esparramando pelos grãos úmidos de seiva nova.
A prole se fez horizonte largo, lá onde o vento caricioso ainda sopra no sorriso manso da mãe apaziguada.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h50
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Gênesis
E nós corríamos ao vento
ou era o vento que corria de nós
e a areia grudava em nossos pés
na beira da água espumosa
e nossos ombros bronzeados
de dias incontáveis nus
despidos dos outros em nós
nossas vestimentas rasgadas
nossos corações grudados
e as gaivotas costumeiras
voando em uníssono
arribando sobre as águas
levantando peixes reluzentes
enquanto ríamos de nada
chorando lágrimas de gozo
sentindo o cansaço gerado
por puro movimento livre
lassidão de corpos vivos
na vastidão edênica
só nossa e de nossos seres.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h37
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Comentando “estorvo”
Os admiradores de Chico Buarque de Holanda que acompanharam suas letras inspiradas entre carolinas e januárias, ou vendo “a banda passar”, nas baladas, valsinhas e chorinhos, desde a década de 60, seguiram, também fiéis, seus instantes de questionamento da situação política brasileira, receberam “Construção” e “Deus lhe pague”, e ficaram esperando respostas em “O que será, que será? “. Esses mesmos fãs foram tomados, entretanto, por uma espécie de sobressalto ou susto, quando Chico Buarque, o letrista dessas canções, lançou seu livro “estorvo”, em 1991. Nessa altura, ficou difícil reconhecer e assimilar o mesmo compositor na assinatura dessa obra. Transtorno igual causou sua adaptação para o cinema, realizada pelo diretor Ruy Guerra, com o filme homônimo.
A obra escrita “estorvo” produz realmente uma leitura inquietadora e instigante. A sensação de estranheza se inicia na primeira página onde se prenuncia o narrador, em primeira pessoa, que seguirá até o fim do livro a caminhar, como num pesadelo, em meio a cenas oníricas e episódios mal explicados e desconexos, na revelação de um non-sense geral.
O personagem-narrador, protagonista dos fatos, se defronta no início com um homem aparentemente desconhecido que o acorda de um sonho, apertando a campainha do apartamento. E os dois personagens que se cruzam no episódio mantêm uma relação ambígua. Percebe-se no protagonista, despertado do sono pesado, uma confusão mental na mistura da realidade e fantasia. Imerso na perplexidade, ele perscruta o outro, que aciona a campainha, através do olho mágico da porta. O rosto do homem, apesar de retorcido pelo olho mágico, parece familiar e o narrador sabe que o outro o conhece. Então, por um motivo indecifrável, se põe a fugir dele. E, a partir daí, vai fugindo e se envolvendo em situações insólitas.
Ele realiza atos quase automáticos, que, pelo fato de serem impensados e não intencionais, conduzem à impressão de não ocorrerem realmente. Seus gestos e atividades não tocam a realidade. Tornam-se fantasiosos, uma vez que nada é explicado e questionado pelo protagonista. A ambientação do livro é uma cidade qualquer, enorme, moderna, tensa e agressiva, onde ele se move entre pessoas, com as quais mantém vínculos sempre precários, superficiais e interrompidos. Quase não há diálogo que faça essa inter-relação. Os fatos se sucedem numa sobreposição temporal. Os personagens que surgem raramente conhecem ou reconhecem o narrador, antes de envolvê-lo nos acontecimentos, fato que ele aceita com passividade.Estabelece-se um texto esquizofrênico, diluindo-se os sentidos no embaralhamento dos tempos e na carência de causalidades.
O livro “estorvo” nos choca, nos deixa sem chão ou num terreno movediço, onde intuímos traços de nossa efemeridade, nossa contingência. Funciona talvez como uma catarse ou como um exercício de auto-conhecimento obrigatório, coloca em xeque nosso questionamento surdo, na medida em que sua leitura nos causa um desconforto, um mal-estar, um verdadeiro “estorvo”.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h55
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Diversão
tomei conhecimento do vôo no azul,
sei das arribações regulares, longínquas
dos pássaros
invejo a disponibilidade vagabunda
dos álacres noctívagos
sentados nos bares da saudade,
e meu plano de liberdade
faz o oposto,
arranja espaço exíguo
com lume suficiente
para dialogar com esfinges
ouvir vozes de outras interioridades
onde talvez se eleve
prá meu deleite
um coral de anjos
que talvez me aceite.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h26
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Contenção
não permito
que o vulcão
da sensibilidade
entre em erupção,
temo que isso me devolva
minhas próprias lavas frias.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h37
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Desordem
de nada me adiantou o vinho que entornei
e os retalhos que rabisquei
vendo a lua murchar e virar céu escuro,
minha língua arde na poesia que nada diz
meus cadernos são linhas tortas
querendo o rumo aprumar,
de nada adiantou sonhar com você
nada ficou no fundo das cinzas no cinzeiro
nem nas borras do café que derramei no sofá.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h43
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Discurso
minha fala é impregnada de plural,
recito conceitos
através de minha própria vestimenta,
pelos gestos denuncio
um passado inteiro
imerso no chão que piso,
sou uma voz plena de ecos
dos sonos das gerações,
aquilo que, inadvertida, julgo
ser minha estrela,
é uma constelação
fora de mim,
meu verbo se traduz
nas mil centelhas
de outros dizeres,
sou apenas a reverberação
de um mundo condicionado
onde me integro e
de onde tento escapar
com minha peculiar
maneira de falar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h15
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Ela e ele
Chamou-o pelo nome, bem baixinho, talvez com receio de acordá-lo realmente. Gostou do som da própria voz, que lhe traía sempre os sentimentos. Nunca falara o nome querido sem aquela perceptível nuança de afeto. Não era proposital, como deveria parecer aos outros. Chamá-lo pelo nome, soava como uma invocação.
Não poderia identificar a época em que começara a amá-lo. Percebera apenas a transformação que nela se operara, lentamente, passando a redescobrir o mundo. Ia como que levantando, aos poucos, o véu opaco que antes o cobria.
Havia corrido todos os riscos. Perdera-se neste ser amado, entregando a identidade. Então se encontrara, contradizendo as leis que temia. Ela se encontrara melhor e mais profundamente na entrega.
Passou devagar a mão sobre o dorso nu do homem que repousava, indiferente ao desenrolar de seu pensamento. Logo ele se levantaria, espantado ao perceber que perdera a hora. Sorriu à lembrança da mesma cena de sempre: ia deixá-lo correr afobado para o banho, sabendo que não adiantaria dizer-lhe que era domingo. E que não havia motivo de pressa. Ele, como sempre, faria uma reclamação qualquer e não conseguiria voltar a dormir. Hábito adquirido nos dias de semana.
Cenas de uma longa convivência a dois são repetidas e tendem a perder o sabor do novo. Mas, não lhes acontecera ainda. Com as incontáveis coisinhas do cotidiano construíram uma rede a envolvê-los calorosamente.
O domingo se prolongaria como inúmeros outros domingos. Ela era a mesma, a viver naquele ritmo habitual, sem desejar mudá-lo.
Ele, o companheiro, lhe retribuía os sentimentos idênticos, surpreso por lhe despertar tanta vida. Eram tão diferentes e tão iguais. Guardavam o dom de amar naturalmente, como se respirassem em uníssono.
A ele, nunca era necessário divagar sobre o que se passava. Completavam-se, sem esforço, sem perdas e dores, como se o universo estivesse no início e houvesse tudo a descobrir juntos. A antiga luta dos sexos fizera trégua entre eles.
No domingo preguiçoso, a camaradagem tinha espaço para se libertar, Ele e ela, dentro de casa, dentro da vida, dentro de si, donos do destino.
Era bom e cálido contemplar nele a curiosa admiração pelos mínimos detalhes de seu universo de mulher. Ele não sabia ocultar essa admiração e sentia-se, às vezes, como que envergonhado e carente diante dela.
Ela pensava nos porquês que os ligavam, vendo-o debruçado a ler os jornais, que espalhava sobre a mesa, costume relacionado à tendência de se espalhar pelas variadas manifestações humanas.
A inclinação dela era pelo calor dos debates, das palavras, da lucidez ante cada gesto. Ele não teorizava tanto, nem queria explicar nada, e, com duas ou três observações, sintetizava magnificamente o excesso de intelectualismo dela.Enquanto ela abraçava grandes causas profundamente teóricas, ele se lançava com ímpeto na renovação do tangente e do concreto.
Caminhavam de mãos dadas, olhando para o mesmo horizonte, mas o roteiro dela geralmente se cobria de névoas, ao passo que o dele era feito na nitidez de luz ou trevas.
Admiravam-se da própria fidelidade que ela freqüentemente pensava estar ligada a uma certa comodidade afetiva. Como ele não procurava razões, ela acabava sendo levada pela sua intuitiva forma de viver. As inquietações iam ficando sem respostas até se dissolverem nas próprias respostas da vida.
Nos seus desencantos mundanos, buscava a muda deferência dele que a acolhia sempre como a um ser especial. No seu modo de captar certezas, ele via nela uma dimensão singular da figura feminina. Ela fruía dele a poderosa sensação de estar fincado no chão e a permanência dele no tempo regular das estações do ano. Naquele domingo, renovava-se, mais forte que o sol a pino, o amor entre eles. Eram tão diferentes, mas amavam, da mesma forma, o domingo e o mundo.
Escrito por Dora Vilela �s 15h35
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Incoerente
eu escureço nas páginas
das narrativas luzentes
com promessas de redenção
e glória,
o que são heróis, aí,
senão mortos exemplares?
mas, e a vida?
não sou fácil de crer
em soluções e remédios
que cuidam de apaziguar,
há que se descobrir que
viver é uma guerra
onde o inimigo se oculta
até num beijo de amor.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h10
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Curiosidade ( pelo menos, para mim)
Fui sempre leitora contumaz da literatura brasileira, inclusive porque cursei uma faculdade de Letras.
E, lembro-me de ler, com a mesma avidez, a obra de Clarice Lispector, envolvida e fascinada pelo estranho universo ficcional da autora. Recordo-me da leitura que fiz dos artigos críticos, entre perplexos e surpresos, da época do aparecimento de Clarice no cenário da literatura. Sua interpretação de mundo, muito pessoal, causou uma enorme estranheza e, ouso dizer, chegou a chocar a “rotina literária” e a oscilar os cânones da crítica especializada.
A receptividade da nova escritora se dividiu em vozes que se surpreenderam agradavelmente e outras que torceram o nariz diante do “mistério” que ela representava.
Clarice foi considerada “uma clave diferente, à qual o leitor custa a adaptar-se”. Suas questões temáticas se debruçavam sobre aspectos fundamentais da existência, como o Tempo, por exemplo, elemento que passa por um tratamento essencialmente particular e “clariceano”. Clarice Lispector teve sua escritura analisada como sendo “uma escritura que deve ser entendida com o corpo, pois com ele escreve”.
Há trechos da escrita de Clarice que deixam os leitores desavisados, ou os que não a penetraram intensamente, chocados ao extremo, como o trecho em que ela vai descrevendo a “vontade de comer a barata”, que a personagem enfrenta para descobrir a verdade de si-mesma, no livro “ A paixão segundo G.H.”
Enfim, Clarice Lispector simbolizava, para mim, uma força estrangeira e forte, dentro da literatura e, em conseqüência disso, minha tendência era imaginá-la quase uma figura transcendente, ou não humana.
Entretanto, sempre soube que ela escrevia em revistas, nas páginas que tratavam de assuntos mundanos e fúteis. Sabia que o primeiro convite para ela partiu do cronista Rubem Braga. E para não comprometer sua carreira literária, Clarice se protegia atrás do pseudônimo Teresa Quadros. Até aí, eu sabia de tudo. Mas, há pouco, li, com evidente espanto o teor das colunas escritas por Clarice. Ela discorre sobre moda, sedução, cores, defeitos da mulher, enfim, ela se dirige às mulheres, ensinando-lhes truques e maneiras de ser “sedutoras” e femininas.
Clarice assina ainda dicas de culinária e se preocupa com detalhes, e até com merchandising.
Nada contra essa faceta de Clarice. Mas, o que me deixou contente foi que essa novidade, de textos de revistas, devolveu-me uma Clarice Lispector-gente, de carne e osso, envolvida com cosméticos e delicadezas de enfeites das mulheres. Clarice deixou de ser um mito inatingível, e se tornou, para minha satisfação, como todos os escritores geniais são: pessoas. Talentosas, sim, raras, sim. Porém, humanas.E, no caso dela, uma mulher extremamente feminina.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h03
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Ecoando
soa como um lamento
o vento que não se cala
sob a janela do quarto,
mas é apenas a ressonância
do alento que falta
no peito que não descansa,
insone, neste aposento.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h16
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Fenômenos
o dia permanece
e me arrasto nele
separando as seções,
uma parte de mim
quer dormir,
outra parte quer ser útil,
restam algumas
que se ajeitam
dentro das leis,
outras ainda que abrem gavetas
e rasgam papéis,
à tardinha, dura aquela que
se afastou, lateralmente,
e apanhou as amoras
do pomar vizinho.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h58
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Poema em meio à comoção geral do povo brasileiro que mais uma vez se decepciona com sua “própria gente”...
Resíduos
sobram sempre
na boca do tempo
restos esquecidos
em cada esquina
que se dobrou,
em cada canto
que se pousou,
em cada luar
que se contemplou,
sobra um molde do colo amado,
sobra o suspense do bilhete dobrado,
sobra uma poeira dourada,
sobretudo, sobra
a sombra miúda
de um pouco
de tudo
que já
significou.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h48
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