 |

Frase feita
cantei-te doçuras
de estrelas e luas
e de toda a via-láctea,
trouxe-te pássaros, lendas
e borboletas azuis,
molhei-te de ondas
de espumas e sal,
cobri-te de astros,
de terra e de mar,
e no cansaço de tudo
escolhi dizer-te
simplesmente
eu te amo
e só então
me reconheceste
e me escolheste
por apenas três palavras
de linguagem tão banal
e universal.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Matéria de Poesia
Cansei de explorar espécimes raras de flores por aí...Ando à procura das ervas comuns simples e rasteiras, e até do capim verde, tão igual e tão agarradinho à bordura das margens. Enfastiei-me das orquídeas sofisticadas e embelezadas à custa de jardins artificiais, dependentes de clima e de cuidados. Não me importo com as plantas complicadas e seus nomes científicos e enciclopédicos.Nem com as pessoas-flores-de estufa. Procuro mesmo o chão de terra nua, a poeira de caminhos descaminhados, os seixos gastos por ondas rebeldes. Pretendo enxergar as minhocas revolvendo os caminhos subterrâneos e lamacentos.Os insetos que têm o prazo de um dia para morrer. Simplesmente. Os córregos tímidos e seus murmúrios cantantes. Os peixinhos em cardumes, daqueles bem triviais. Assalta-me a volúpia das miudezas e das futilidades naturais.
E quero meu olhar se derramando na figura da criança nua, cara de anjo sujo, nariz escorrendo sobre o sorriso inocente da falta de dentes.
No monturo e nas sarjetas, quem sabe me embeveça. São restos que ninguém quer.
Tudo aquilo_ que não importa a ninguém _ existe, porque deve existir. É o inútil da realidade. É onde o mundo faz curva para não ver.
É a orfandade que a Poesia recolhe e adota como filhos, semeando sobre eles a purpurina das fantasias de Carnaval.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Inadimplência
sou devedora
de todas as manhãs que me adoçaram
de todos os luares que me banharam
de todas as águas que transpirei
de todos os frutos que mordi
de todas as terras que aplainei,
que pago em módicos suspiros
em suaves primaveras
nas lentas negociações
para alongar meu prazo
enganar meus credores
e assim começar tudo de novo,
regateando_quem sabe?
alguns entardeceres,
de sol mais ameno,
seguidos de noites
bem cheias de madrugadas...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Canto profético
Galo da manhã
empoleirado no galho,
fino galho, só dele,
seu pódio da madrugada.
Canta o galo no galho,
anunciando a manhã,
julga-se cantor de um só tom,
que lhe basta em sua missão.
A natureza acontece,
traz a manhã e a vida,
e o galo quem sabe, pensa,
com sua crista nervosa,
ser o agente urgente
do acaso que lhe obedece.
Sou como o galo, que canta,
profetizando, clamando,
as coisas que hão de vir,
como se, sem meu canto,
nada mais fosse surgir.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Equívoco
parece que nada aprendi
porque só retive as lágrimas da chuva
a ardência incômoda dos raios de sol
a arrebentação pesada do mar na pele
a picada aguda das urtigas
o chicote dos ventos
o gelo das madrugadas
a náusea das insônias
e o tédio dos diálogos inimigos,
engano de minha alma!!!!
a íntima e intensa alegria
que pouco vivenciei
arranquei do sumo
de todas as asperezas
e valeu, como valeu!
essa brevidade alegre
que é, enfim, a vida:
um primoroso tecido rendado
cheio de toscos remendos
e nós, quase cegos,
se, no avesso,
eu tivesse permanecido!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Pingos nos is
Andei lendo uns artigos que me incomodaram e me desafiaram.
E me livrei da desagradável sensação, redigindo isso.
Nunca foi minha meta, ou sonho inconsciente, em fase alguma da vida, desde que garatujei as primeiras vogais, pertencer à Academia Brasileira de Letras.
Nem almejei ter livro publicado, em edição cuidada, com capa, prefácio, e a parafernália das editoras. Não tive jamais pretensões artísticas, a não ser aquelas intuitivas.
Não me vejo poeta na acepção desse substantivo que abarca pessoa laureada, levada ao pódio das letras, aclamada por críticos e público.
Nem quero ser compromissada em mudar o mundo, através da escrita, ou ser profeta e anunciadora de futuros.
Não condeno, porém, nem julgo quem tenha esses anseios.
Eu apenas escrevo e gosto que me leiam. Satisfaço-me com esse ir e voltar, de mim para o outro, e vice-versa, dentro da simplicidade que cabe nesse gesto.
Não nasci marcada com o fardo dos grandes gênios da Arte, e não deploro esse fato.
Contento-me em ser nascida, conhecer o uso das palavras que portam as idéias ( nem sempre, entretanto) e exercitar esse jogo de traduzir vivências em símbolos gráficos.
Há manias e manias na variada espécie humana.
Existe quem abomine escrever, pintar ou tocar algum instrumento musical.
Mas, não existe ninguém que não PENSE, a menos que tenha o cérebro lesado. Assim, como não há ser humano que não deseje,de alguma maneira, comunicar o pensamento.
A comunicação é uma atividade vital. A troca interpessoal é indício de sanidade da mente viva.
Eu só quero me comunicar. Escolhi as letras e, nelas, a forma poética com que costumo encarar a realidade. Não sou artista. Não sou poeta.
Sou apenas gente. Ou, melhor, uma pessoa. Falante. “Escrevente”.
E meus escritos são só vasos comunicantes.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Momentos
Na breve primavera
do jardim de ontem
desfilei entre flores rubras
roubando-lhes, despudorada,
o aroma e a maciez
do vinho tinto no cálice.
Guardo dessas pétalas
o perfume adocicado
que se desmancha hoje
em folhas de chá
nas xícaras
das minhas
tardes outonais.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|


Quem disse que eu sumi? Olha a Dora Vilela aí, em João Pessoa, com as meninas!! Emoção demais! Vale só mostrar fotos?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h47
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

(competindo com Lela...rs)
Maternal
Criança, que embalei nos braços,
quantas outras embalagens
hoje te envolvem e te diferenciam!
como te amei, quando nu,
te envolvia em meus braços
também nus,
não te ofereci o que não possuía,
mas entreabri o pouco horizonte que enxerguei,
foste longe, foste além,
teus olhos recolheram cores demasiadas,
colheste frutos que julgaste maduros,
em sôfrega busca, caminhaste.
Apelo-te para atentares no mistério,
no delicado mistério do mundo...
para discernires as estações das flores,
há um tempo para cada desabrochar,
e há ocasião de despetalar,
como existe o momento solene das flores murchas.
E, repara, que podes sempre retornar,
nu, e de mãos vazias,
para meus braços ainda nus
do início de tudo.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Identificação
_não me apraz sedenta assim
do invólucro desse mito
de ser nascida e criada
chorosa e atenta,
inimiga da lassidão
apertando os laços
enrijando dentes
mordendo a noite
que é manto de luto
arquejando em procuras
de clarões e sinais
de terra firme
de descobrimentos
raízes, começos
e esclarecimentos_
sou... quem?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h05
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|
|
|
|