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Coisa nossa
Neste momento,
nos embalamos,
em quase desmaios,
e nos enroscamos,
em enleios,
meneios,
devaneios,
me enlaças,
me encantas,
me deslembras
do que não é nosso,
do que não aceitamos,
só tuas mãos,
só teus lábios,
teus afagos,
meus agrados,
meus anseios,
só tu,
só eu,
só nós
e o que é nosso.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h31
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ESFINGE SERTANEJA
ESFINGE SERTANEJA
Ao amigo Bené, o Apanhador de Sonhos.
No ermo sertão,
à porta de velha tapera,
acocora-se nhá Quitéria,
de banco carece, não.
Cachimbo encaixado
na hipotonia do beiço,
cusparada de lado,
saliva grossa de sarro.
Mastiga as gengivas,
encolhendo os olhos de enigma,
mil pregas na face,
branca e rala a carapinha.
Idade, não tem, não,
nasceu numa festa,
era Cosme e Damião,
abastança de doce de obrigação.
Só espia o tempo de dentro,
depois de ler na amplidão,
por fios de anos afora,
decorou, que tem boa memória,
a estiagem vem após
a formigação na perna,
a chuvarada despenca
atrás da gastura no corpo.
Sapientíssima nas rezas,
oráculo no matão,
já curou muita bicheira,
mau-olhado, piolho, sezão.
Na contemplação esquecida,
chacoalha a cabeça e prevê
mortandade de gado,
maleita, colheita perdida.
Só ela não morre,
apoiada no chão,
enraizou, fez morada,
se incorporou ao sertão.
No pouco do sertanejo
fez seu tempero de vida,
e, veterana de luta vencida,
não dá baixa, nem faz despedida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h31
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Identidade
Meu amor,
meu chamamento,
meu apoio,
união – de superfície...
o ser é uno,
o ser é só.
Meu amor
é um resumo
do resto que não sou.
Meu amor,
ou o que é meu,
não sou eu...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h44
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Arte?
Lento, a passo,
quase destino,
quase intenção,
meu canto
quer criar o mundo.
Paira o olhar
no existido,
engole o sentido
e devolve a canção
agora nova,
agora outra,
agora, pura intuição...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h54
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Comprovante
Meu habitat é a dor,
um círculo de fogo,
e todas as aflições
do fundo do ser.
Certezas de tudo,
clareza das sombras,
dos trajetos de espinhos,
de tédio e desesperança.
Lamentos não cabem,
tudo inútil,
nem apelos, nem consolos,
tudo vão.
Sou igual, sou elo
da corrente humana,
parcelei o sofrimento
que é quinhão de todos.
No entanto, minha pena
é certa e conhecida,
enquanto outras enfeitam a sua
com o ouro das realizações.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h30
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Fantasma
Foi de lá que ele veio,
da noite dos meus tempos,
devagar, à moda proustiana,
me apanhou na sonolência,
e então me percorreu
com um fundo sentimento.
Veio na voz de meu pai,
da rede em que se embalava.
Trouxe no som, um instante,
uma doçura, um cheiro de mato,
uma quentura de corpo,
uma sombra protetora
se projetando no espaço.
A voz chamava,
num pedido à toa,
mas era a voz de uma infância inteira,
sensação de aconchego, de certeza,
minha pequenez se aquietando,
e a larga ansiedade,
a se embalar,
na mesma rede...
E na voz que chamava,
tudo era certo e acorrentado
na linha do passado.
Em silêncio, a plenitude...
Em silêncio, a vida total concentrada.
Em silêncio, a morte doce e completa.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h21
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Percepção
No arrepio da brisa,
tremo levemente,
enquanto o corpo se reconhece
no pulsar das veias,
no trajeto do sangue,
no fluxo ininterrupto
das trocas que me percorrem.
Suave é o momento
dessa consciência orgânica,
e identifico, gradativa,
a existência se realizando.
Os sentidos se aliam
na missão da descoberta.
Minha leveza
se afirma,
meu ser corpóreo, nuvem,
minha anatomia, sopro
e minha alma, corpo.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h24
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Receios
Semeio lendas
entre as pessoas,
povoo espaços
com afirmativas
sem convicção,
nunca me enxergam em lágrimas,
nem em convulsas paixões,
sou avessa a
mostrar meu avesso
que não tem explicação...
Não é recato,
nem orgulhoso pudor,
talvez seja apenas
a quase certeza
de que tanta incerteza,
de inexplicável crueza
não seja merecedora
de devida atenção.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h33
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Projeção
Desejo obter o linguajar
arrancado da emoção
como se arranca do peito
um coração
ainda palpitando,
de sangue latejante!
Desejo o cantar
da paixão avassaladora, louca,
recém-nascida!
E desejo o reboar dos trovões,
o ronco das tempestades,
o rugido das feras!
As onomatopéias todas!
Tudo isto para falar
do meu sentimento
que guardo,sem expressão,
porque o penso exangue,
porque o pretendo frágil,
porque o mantenho contido,
enquanto o retenho meu.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h36
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Contraste
Luta infinda,
sem trégua,
sem conquista,
sem vitória
e sem derrota.
Apenas luta,
labuta, feito busca,
maratona, cego rali,
sem medalhas,
sem troféus,
sem aplausos.
Apenas o prêmio
comum, igual,
sem valor,
sem mérito,
sem futuro.
Vida, corrida desenfreada.
Morte, bandeirada fatal.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h56
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Impossível
Não há silêncio que me baste.
Meu burburinho é atávico,
fui com ele plasmada.
Sons me povoam de remotas eras
e ouço suas convições com receio.
Não tenho direito a escolhas,
elas já me foram impostas.
Nem a vã filosofia alcanço.
Por mim mesma não atinjo a realidade,
se ela já vem acabada e completa.
Meu berço está muito além do agora,
paira no espaço incógnito,
e, mesmo na quietude sideral,
reboam os ecos que me penetram...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h28
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Rebelde
Rebelde

Não gosto de dicotomias,
não contam com três elementos,
são egoístas,
só existem aos pares.
Aprecio as divisões
em três, mil, milhões...
Opções também são desagradáveis,
eliminam o “aquiloutro”,
ficando no “isto” ou “aquilo”.
Quero é multiplicar,
esbanjar soluções,
arranjos, resultados,
abrir os parênteses,
soltar os colchetes,
desmanchar as aspas...
passar dos limites,
derrubar paredes,
cercas e muros,
alargar os horizontes,
desrespeitar as alfândegas
e rasgar os uniformes.
Anarquia também é uma forma
descontraída de viver.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h38
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Repouso
Realizo gestos universais,
pragmáticos, aceitáveis.
Guardam na mesmice
o conforto do descanso.
Formam meu patrimônio
duramente conquistado.
Fazem parte de um todo visível
e constroem meu chão.
Meus gestos abraçam o mundo,
sabem de cor suas leis.
Não são falsos.
Entretanto, não passam de arabescos,
contornos e toscos esboços
de um oculto desenho primoroso.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h33
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Súplica
Não me digas não,
nem me acenes com adeus,
não me deixes finita,
nem inacabada,
não inventes desculpas,
nem saias do tempo,
sê onipotente,
vence os deuses,
derrota os reveses,
pois, te amando, te gerei,
e te guardei em mim,
sendo tu e eu
a figura unitária.
Não partas,
não cruzes a dimensão
onde nos dividiremos,
não me abandones,
não me deixes,
não morras...
Nunca!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h53
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